O cenário antes da Copa
Gianni Infantino chegou à Copa do Mundo de 2026 completando dez anos na presidência da Fifa. Ele assumiu o comando da entidade em 2016, após a saída de Joseph Blatter, em meio ao maior escândalo de corrupção da história da organização.
Desde então, promoveu mudanças profundas no futebol internacional. Entre elas estão a ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções, a criação do novo formato do Mundial de Clubes e uma estratégia voltada para aumentar as receitas comerciais da Fifa, que hoje registra faturamento recorde.
Apesar dos resultados financeiros, sua gestão já enfrentava críticas antes mesmo do início do torneio. A expansão das competições, a concentração de poder nas decisões da entidade e a relação próxima com líderes políticos vinham sendo questionadas por dirigentes, torcedores e parte da imprensa.
Quando a bola rolou nos Estados Unidos, México e Canadá, a pressão aumentou. Ao longo da competição, polêmicas envolvendo a arbitragem, o alto preço dos ingressos, questões de segurança, críticas à organização e episódios políticos fora de campo colocaram a Fifa novamente no centro das discussões.
Mesmo assim, nenhuma dessas controvérsias foi suficiente para enfraquecer Infantino internamente. Pelo contrário: nos bastidores, o dirigente manteve o apoio da maioria das federações nacionais e reforçou sua influência sobre a principal entidade do futebol mundial — um contraste que ajuda a explicar por que saiu da Copa mais forte politicamente do que parecia nas redes sociais.
Arbitragem

A arbitragem esteve entre os temas mais debatidos da Copa do Mundo de 2026. Desde a fase de grupos, decisões de campo e intervenções do VAR provocaram reclamações de jogadores, técnicos e torcedores, alimentando discussões sobre a consistência dos critérios adotados pela Fifa.
Um dos primeiros episódios ocorreu na partida entre Senegal e Noruega. O árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio optou por manter sua decisão em campo e não revisou um possível pênalti para os senegaleses, mesmo após conversar com a equipe do VAR. O lance gerou forte repercussão e voltou ao debate sempre que novas polêmicas envolvendo a arbitragem surgiam durante o torneio.
O caso que mais repercutiu aconteceu nas quartas de final entre Suíça e Argentina. Após uma disputa de bola envolvendo Breel Embolo e Leandro Paredes, o VAR recomendou a revisão da jogada. Depois da análise, o cartão inicialmente aplicado ao argentino foi retirado, enquanto Embolo acabou expulso por simulação. A decisão dividiu especialistas e gerou críticas de torcedores e da imprensa internacional, que questionaram os critérios utilizados pela arbitragem.
Outros lances controversos também marcaram a competição, incluindo reclamações do Egito, protestos da Escócia após um gol anulado de Vinícius Júnior e discussões sobre o uso da tecnologia da bola conectada, utilizada para identificar toques de mão e auxiliar na validação de jogadas. Embora a Fifa tenha defendido o sistema durante todo o torneio, as decisões continuaram sendo alvo de debate até a final.
Organização
A primeira Copa do Mundo com 48 seleções e sediada simultaneamente por Estados Unidos, Canadá e México impôs à Fifa um desafio logístico sem precedentes. Embora o torneio tenha sido concluído sem grandes problemas estruturais, a organização foi alvo de críticas durante toda a competição.
Um dos principais pontos de debate foi o calor intenso em algumas cidades-sede. Jogadores e comissões técnicas relataram dificuldades para atuar em temperaturas elevadas, reacendendo discussões sobre a escolha dos horários das partidas e as condições oferecidas aos atletas. A Fifa manteve as pausas para hidratação e afirmou que seguiu os protocolos médicos previstos para situações de calor extremo.
Outro desafio foi a logística entre os três países anfitriões. As longas viagens entre sedes exigiram um planejamento rigoroso das delegações e levantaram questionamentos sobre o desgaste físico dos jogadores ao longo do torneio.
A organização também acabou sendo impactada por questões políticas. A delegação do Irã enfrentou restrições relacionadas às regras de entrada e permanência nos Estados Unidos, situação que levou o capitão Mehdi Taremi a cobrar publicamente uma atuação mais firme da Fifa para garantir igualdade de condições entre as seleções participantes.
Apesar das críticas, a entidade sustentou que o planejamento atendeu aos padrões previstos para um torneio de dimensões inéditas e classificou a competição como um sucesso operacional.
Política
A relação entre Gianni Infantino e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também esteve no centro das discussões durante a Copa do Mundo. A proximidade entre os dois voltou a ser alvo de críticas após um episódio envolvendo o atacante americano Folarin Balogun.
Expulso na partida contra a Bósnia e Herzegovina, pela fase de dezesseis avos de final, Balogun teve o cartão vermelho anulado pela Fifa antes do confronto seguinte, diante da Bélgica. A decisão ganhou repercussão internacional após reportagens apontarem que Trump teria conversado com Infantino antes da revisão do caso. O presidente americano comemorou publicamente a mudança da punição.
A reversão da decisão provocou reações de dirigentes e federações europeias, que cobraram mais transparência da Fifa e questionaram a possibilidade de influência política em um processo disciplinar. A entidade, por sua vez, afirmou que a revisão seguiu os procedimentos previstos em seu regulamento e negou qualquer interferência externa.
As críticas aumentaram com a participação frequente de Infantino em eventos ao lado de Trump durante o torneio e com a entrega do primeiro Prêmio da Paz da Fifa ao presidente americano. Para parte da imprensa internacional e de dirigentes do futebol, esses episódios reforçaram a percepção de uma relação institucional excessivamente próxima entre a entidade e o governo dos Estados Unidos, país que foi o principal anfitrião da Copa de 2026.
Comercialização
Os preços dos ingressos estiveram entre as principais críticas à Copa do Mundo de 2026 desde o início da venda das entradas. Associações de torcedores, especialmente da Europa, afirmaram que os valores dificultavam o acesso do público tradicional ao torneio e favoreciam um perfil de maior poder aquisitivo.
O grupo Football Supporters Europe classificou a política de preços como excessiva e estimou que um torcedor que acompanhasse sua seleção da fase de grupos até a final poderia gastar cerca de US$ 6.900, considerando ingressos, deslocamentos e hospedagem. Em resposta às reclamações, a Fifa lançou uma categoria de bilhetes a partir de US$ 60, mas a medida foi considerada insuficiente por representantes dos torcedores.
Também houve questionamentos sobre a venda de ingressos destinados a pessoas com deficiência. Organizações apontaram preços mais altos do que em edições anteriores e relataram falhas na fiscalização de assentos reservados para pessoas com mobilidade reduzida.
Apesar das críticas, a demanda por ingressos permaneceu elevada durante todo o torneio. A Fifa informou que a Copa de 2026 registrou receitas recordes, impulsionadas pela venda de entradas, patrocínios e direitos de transmissão, consolidando o Mundial como o evento mais lucrativo da história da entidade.
Como a Fifa respondeu
Ao longo da Copa do Mundo, a Fifa adotou uma estratégia semelhante diante das principais controvérsias. A entidade reconheceu alguns problemas, anunciou medidas pontuais e, ao mesmo tempo, destacou os resultados financeiros e os números de audiência para defender o sucesso da competição.
No caso dos ingressos, por exemplo, a Fifa criou uma categoria de entradas com preços mais baixos após as críticas de torcedores. A entidade afirmou que a medida tinha como objetivo ampliar o acesso do público ao torneio, mas manteve a política de preços para a maior parte das partidas.
Em relação ao calor registrado em algumas sedes, a organização reforçou o uso de pausas para hidratação e disse seguir os protocolos médicos previstos para situações de temperaturas elevadas. Ainda assim, jogadores e comissões técnicas continuaram relatando dificuldades durante a competição.
No episódio envolvendo Folarin Balogun, a Fifa sustentou que a revisão da punição seguiu as regras previstas em seu Código Disciplinar e não comentou as informações sobre uma suposta conversa entre Gianni Infantino e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
De forma geral, a entidade evitou ampliar o debate sobre as críticas e concentrou sua comunicação nos indicadores positivos da Copa, como público, audiência, arrecadação e alcance global. Essa postura ajudou a preservar o discurso oficial de que o torneio foi um sucesso dentro e fora de campo, apesar das controvérsias que marcaram a competição.
O papel de Gianni Infantino
Durante toda a Copa do Mundo, Gianni Infantino manteve uma presença constante nos estádios, reuniões com dirigentes e eventos oficiais da Fifa. Em meio às críticas sobre arbitragem, organização, preços dos ingressos e questões políticas, o presidente da entidade adotou um discurso voltado aos resultados alcançados pelo torneio.
Em suas declarações públicas, Infantino destacou o aumento do número de seleções participantes, os recordes de público, a audiência global e a expectativa de receitas históricas para defender a Copa de 2026 como um marco para o futebol mundial. Para o dirigente, a expansão da competição representou um passo importante para tornar o torneio mais inclusivo e ampliar a participação de países de diferentes continentes.
Apesar das controvérsias, a pressão externa teve pouco impacto sobre sua posição dentro da Fifa. Isso porque o presidente é eleito pelas 211 federações nacionais filiadas à entidade, e não pela opinião pública. Enquanto torcedores e parte da imprensa concentravam as críticas na condução do torneio, Infantino manteve o apoio da maioria das associações que compõem o colégio eleitoral da Fifa.
Na prática, esse cenário explica por que o dirigente encerrou a Copa politicamente fortalecido. Embora sua gestão tenha sido alvo de questionamentos ao longo da competição, não surgiu um movimento organizado capaz de ameaçar sua liderança dentro da principal entidade do futebol mundial.
Bastidores da entidade

A força política de Gianni Infantino vai além da repercussão das decisões da Fifa entre torcedores e nas redes sociais. Desde que assumiu a presidência da entidade, em 2016, o dirigente construiu uma ampla base de apoio entre as 211 federações nacionais filiadas, responsáveis por eleger o presidente da organização.
Infantino foi eleito pela primeira vez em 2016, reeleito sem adversários em 2019 e novamente por aclamação em 2023. Ao longo desse período, recebeu o apoio de diversas confederações continentais, entre elas a Conmebol, que já manifestou publicamente respaldo à sua permanência no cargo. Como cada federação tem direito a um voto, independentemente de seu peso no futebol mundial, o apoio de dezenas de associações menores se tornou um dos pilares de sua força política.
Outro fator que favorece sua permanência é a interpretação adotada pela própria Fifa sobre o limite de mandatos. Como o período entre 2016 e 2019 foi considerado a conclusão do mandato iniciado após a saída de Joseph Blatter, a entidade entende que esse intervalo não conta como um mandato completo. Com isso, Infantino permanece apto a disputar as eleições de 2027.
Durante o Congresso da Fifa realizado em Vancouver, em 2026, o dirigente confirmou que pretende buscar a reeleição. Caso seja novamente eleito, poderá permanecer na presidência da entidade até 2031, ampliando para 15 anos seu período à frente do futebol mundial.
O que muda para os próximos anos
Com o fim da Copa do Mundo de 2026 e a expectativa de receitas recordes, a Fifa inicia um novo ciclo tendo Gianni Infantino em posição confortável para buscar a reeleição em 2027. A manutenção de sua base de apoio entre as federações indica que o modelo adotado pela entidade nos últimos anos deve continuar, com foco na expansão das competições, no crescimento das receitas comerciais e na ampliação da presença global do futebol.
Ao mesmo tempo, as polêmicas que marcaram o Mundial dificilmente serão esquecidas. Questões envolvendo arbitragem, preços dos ingressos, organização e a relação entre a Fifa e autoridades políticas devem continuar fazendo parte do debate nos próximos grandes torneios, especialmente durante a preparação para a Copa do Mundo de 2030.
Outro tema que tende a permanecer em discussão é o modelo comercial da competição. As críticas aos valores dos ingressos reacenderam o debate sobre o equilíbrio entre o aumento das receitas da entidade e o acesso dos torcedores aos estádios. Embora a Fifa tenha adotado medidas para ampliar a oferta de entradas mais baratas, representantes de associações de torcedores defendem mudanças mais amplas para as próximas edições.
No fim, a Copa de 2026 deixou uma conclusão clara: apesar das controvérsias que cercaram a organização do torneio, elas tiveram pouco impacto na estrutura de poder da Fifa. Gianni Infantino encerra o Mundial com críticas à sua gestão, mas também com o apoio político necessário para seguir à frente da entidade e influenciar os rumos do futebol internacional nos próximos anos.
Repercussão internacional
A Copa do Mundo de 2026 foi amplamente debatida pela imprensa internacional, que destacou tanto o sucesso financeiro da competição quanto as controvérsias que marcaram o torneio. Veículos de diferentes países deram espaço para temas como os preços dos ingressos, decisões de arbitragem, questões políticas envolvendo os Estados Unidos e críticas à organização da competição.
O episódio envolvendo a anulação da expulsão de Folarin Balogun recebeu ampla repercussão e motivou pedidos de esclarecimento por parte de algumas federações europeias, que defenderam mais transparência nos processos disciplinares da Fifa. Apesar das críticas, não houve qualquer movimento concreto para contestar a liderança de Gianni Infantino dentro da entidade.
Ao fim do Mundial, o cenário foi marcado por um contraste. Enquanto as discussões sobre a condução da competição dominaram parte da cobertura jornalística, a Fifa comemorou recordes de público, audiência e arrecadação. Nos bastidores, Infantino manteve o apoio da maioria das federações nacionais, consolidando sua posição para as eleições presidenciais de 2027.
Perguntas frequentes
Por que Gianni Infantino foi tão criticado durante a Copa do Mundo de 2026?
As principais críticas envolveram os preços dos ingressos, decisões de arbitragem, questões relacionadas à organização do torneio e a proximidade entre Infantino e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Apesar da repercussão negativa, a Fifa encerrou a competição com receitas e audiência recordes.
O que foi o caso Balogun?
O atacante americano Folarin Balogun teve a expulsão anulada antes da partida seguinte dos Estados Unidos. A decisão gerou questionamentos sobre a transparência do processo disciplinar, especialmente após reportagens apontarem uma suposta conversa entre Donald Trump e Gianni Infantino. A Fifa afirmou que a revisão seguiu as regras previstas em seu regulamento.
Gianni Infantino pode permanecer na presidência da Fifa após 2027?
Sim. A interpretação adotada pela Fifa é que o período entre 2016 e 2019 não conta como um mandato completo, já que Infantino assumiu após a saída de Joseph Blatter. Por isso, ele permanece apto a disputar as eleições de 2027.
A Fifa mudou a política de ingressos após as críticas?
A entidade lançou uma categoria de ingressos com preços mais baixos para ampliar o acesso de parte dos torcedores. Mesmo assim, associações de fãs afirmaram que a medida não resolveu o problema dos altos custos para acompanhar o torneio.
Por que Infantino terminou a Copa politicamente fortalecido?
Embora tenha enfrentado críticas públicas, Infantino manteve o apoio da maioria das 211 federações nacionais filiadas à Fifa, responsáveis por eleger o presidente da entidade. Esse respaldo político foi suficiente para preservar sua posição dentro da organização.
